Monday, 3 March 2008


E assim reza a minha história. Perdão a todos quantos esperam de mim notícias tão frescas como semanais, mas há muito que se me impõe este projecto: o de contar por A mais B como diabo e carga de água vim eu aqui parar, o que me trouxe, porque parti, como parti, quando parti e tudo o que lhe antecedeu, como foi e como aconteceu? E se todos os trabalhos começam com uma introdução, este não será da regra a excepção.


1 - INTRODUÇÃO TEÓRICA

Pretendo, portanto, senhor Professor Doutor, que aí preside à Cátedra e a esta vida que é a minha diante da sua, tão pequena, tão humilde (a minha, senhor Doutor, não a sua, como é óbvio e sobejamente conhecido, e por favor não me mal entenda), pretendo, dizia eu, ao longo deste trabalho relatar um período mínimo de um ano e meio, máximo de cinco, estando a média e a moda na casa dos dois. Como todos os grandes empreendimentos, conto com certeza com um chorrilho de erros, asneiras e palavrões, os quais tenciono corrigir ao longo dos tempos e das épocas, e pelos quais solicito a vossa magnânime compreensão. Por tal não desejo de modo algum massá-lo semanalmente com o pedido de uma leitura extensa e cansativa de quantas alterações no texto induza mas, palavra de honra, tê-las-á nessa caixa de correio semanal, versão após versão, história atrás da história, aqui um ponto de interrogação, ali a moratória, uma virgula retirada, outra por acrescento, a mesma virgula tirada, no seu lugar um acento: e assim a história continua, tomada de vida e vontade, animada dentro dessa criança cujos gestos e descobertas desafiam as imaginações audazes, tão voláteis e efémeras, diante de si dando o melhor de si, semana após semana, até chegar o dia de cumprir este mundo que corre sobre duas pernas e, quando quer, apoiado nuns braços que não são os dele. De modo algum sonho eu com o dia e o término de tão grande relato: as histórias de uma vida terminam no tempo da própria vida, e o fim já todos sabemos - resta saber como, contar onde e explicar porquê, em respostas curtas e breves, de modo a poupar o senhor polícia às exigências e às existências, por demais complexas para consciências que de tão pequenas apenas encontram encaixe dentro de curtos capacetes. Não sonho com o término ou o dia, nem tal me preocupa ou assola, mas reconheço, acredito e defendo ser esta a altura e o momento de a história contar, trazer ao claro e despir, para que outros possam ver como se vem ao mundo, e que em tal acto não há vergonha alguma: apenas um conto, mais um, que reza e repousa deitado e por contar, a pulsar num respirar devagarinho, mal querendo incomodar, todo ele num sinal de presença e constância feita teimosia, estendida e escondida diante de mim nesse mar que me olha dos seus próprios olhos, distantes, verdes habitantes de lá longe, da terra que um dia dei pelo nome de natal. Ainda não tenho nem concebo o nome ou o número dos capítulos e dos cansaços, mas sei perfeitamente por onde começar e quanto devo relatar: começo, portanto, meus senhores e minhas senhoras pelo sonho e pela cama que diante de mim se apresentam e clamam por dias mais calmos, onde a cerveja seja mais benévola e menos constante.


(As vicissitudes informáticas levam a que neste momento me encontre a reescrever os três ou quatro parágrafos que outrora preenchiam este espaço em branco. Porque se puxa um fio à tomada e não se salvou o trabalho entretanto efectuado. Bendito Camões de pena em punho, de quanto te safaste!...Corro, portanto, não só o risco de não obter resultado igual como de, dado o visível estado de irritação no qual me encontro, acabar por declarar como vãos tantos esforços e todas estas intenções..)


2 - DESENVOLVIMENTO - UM ANO NO DESEMPREGO (E OUTROS QUE SE SEGUIRÃO)

Recomeço, portanto, pelo princípio e pelo mês de Setembro de dois mil e dois, a que se seguiu o mês de Outubro e o mês de Novembro, até finalmente percorrer o mês de Dezembro e as ruas de Inverno, meses durante os quais esperei por uma colocação que esteve sempre por vir, como professor de secundário que era, sem resultado favorável ou aprovável. Tinha prometido a mim mesmo esperar pelo Natal e não mais para além dele, porque uma decisão era pedida, uma responsabilidade invocada. Não mais para lá do Natal, dizia eu, como se de um jogo se tratasse, e comigo próprio brincava diante da perspectiva de tal facto. Tendo nascido sob o signo do Touro (e apesar de não crer nem acreditar em nenhuma das imensas charlatanices que acompanham esta religião dada pelo nome de ciência) sempre me disseram ser em mim necessária a certeza e a terra de ter um chão que se pise, firme, determinado, de matriz própria e caminho rasgado. E assim, por tal razão justificava eu esta minha teimosia de não mais esperar que o mês de Dezembro, após o qual não mais quereria ou esperaria a colocação.
Com o mês de Agosto havia terminado o contrato nessa escola de Tomar (contrato, digo eu, numa época que ainda celebrava o contrato, porque hoje apenas se celebra o recibo e o tom verde que reveste a epiderme de todas as plantas e animais que abaixo assinam e digerem, com um pouco de sal, regado a azeite) e chegado o mês de Setembro era altura e era época de o subsídio de desemprego procurar, o subsídio de desemprego exigir. Era sempre na primeira segunda-feira, e nesse ano calhou a dia dois. Para mim e para outros tantos milhares, professores no desemprego de joelhos a caminho de Fátima, cumprindo a migração anual na direcção da desova, ansiosamente na espera de uma colocação tão ansiada e desejada, como uma noiva por noivar.
Uma imensa romaria de professores e candidatos que de norte a sul do país batem à porta das instituições de segurança social, porque há contas por pagar e bocas que não são as suas por preencher, ali no ninho, de onde se grita sempre em ruído e em uníssono, sem ordem ou respeito, procurando apenas garantir a migalha, a chave de um futuro bem mais risonho que o dos irmãos famintos.
Não sei e desconheço porque diabo tinha eu a minha segurança-social na Praça do Areeiro, Lisboa, se a minha residência foi sempre nesse margem do rio que é a Sul. Talvez porque o meu primeiro emprego fora em Lisboa, mais precisamente na Penha de França, tendo sido aí efectuado os primeiros descontos (sinal efectivo de maturidade? a entrada, finalmente, na vida adulta? I don't think so!). Incrédulo, de nada me valeram as constantes investida sobre a senhora do lado de lá do balcão disposta e maldisposta, rabo demasiado grande para o pequeno assento de pau, sobre a possibilidade de transferir o meu processo para almada (torna-se-me difícil escrever o nome desta cidade com letra maiúscula: perdoem-me) porque a resposta foi sempre só uma, inflexível e gorda: não, um não rodopiando nos lábios e subindo aos céus dentro de um grande balão, dirigível, manobrável, cheio de correntes de convecção, umas a dizer que sim, outras nem por isso, de cujo alto se contempla e domina todo um mundo submisso e redondo, circular. Assim sendo, outra alternativa não tinha este rapaz e este moço senão a de se levantar quando já faziam trinta minutos depois das cinco da manhã para partir na direcção de uma Lisboa distante de trinta quilómetros e uma hora e meia de sono e viagem, para ser dos primeiros da fila e da vida, porque o dia não espera e já reside numa mentira que se contou à entidade empregadora, pois de outro modo nos é impossível ali estar, onde os serviços de públicos só trazem o nome, fechados que estão em horário pós-laboral, condenando quem a eles se desloca à perda de um dia de trabalho e outro tanto de salário, retirando férias, felicidade e produtividade, a troco da precariedade desta idade, e mais não rimo porque não me consola. Nem a mim nem a esta família, cujo país por detrás se esconde, de boca aberta e mão dada, estendida, nua e rapada, à espera que algo aconteça. Porque se perde um dia, e outro logo a seguir, na ida e na busca de um médico, um banco ou umas finanças, enquanto se vive na esperança de um dia ter a vida resolvida na lotaria vendida, nesse sítio onde a vida gira em função de quem vende, e não de quem compra, pois quem posses tem (um café, um balcão), desdém todos quantos por favor lhes pedem e no fim agradecem.
Já olhando para o exemplo inglês, onde me encontro e resido, se aos serviços sociais pretendo ir requerem-me uma data e entrevista. Devido ao elevado número de pedidos pode levar duas semanas, às vezes mais, para assegurar um atendimento, uma entrevista, mas não me atrapalha a actividade profissional, e desloco-me pós-laboral até uma sala aquecida e de paredes coloridas, onde me convidam a um sofá e me chamam pelo nome, ao invés deste número de cor verde que seguro na fila do Areeiro pelas mãos e pelo frio, depois de duas horas a fio e em pé, a morder a língua para não adormecer, não vá o número perder, que aqui ninguém me conhece pelo nome, só mesmo pela senha. E não me venham falar de nacionalismos e deserções quando o amor à pátria é tão adolescente como não correspondido, platónico, irónico, deixando-nos de cara à banda enquanto vemos passar ao lado essa menina morena de tranças compridas, cheia de promessas perdidas, saltitando na atenção de quem traz dinheiro na mão.
Desde as seis e meia da manhã de serviço à porta da segurança social, na Praça Francisco Sá Carneiro, Areeiro, Lisboa. À minha frente três pessoas. Pouco se discute, muito se dorme, e para passar o tempo trago a rádio a discursar ao ouvido, porque pouca é a vontade de falar.
Não é muito o tempo que leva a juntar diante da porta algumas centenas de pessoas. Chegar às seis e meia da manhã não é só necessário: é cirúrgico. Dez minutos mais tarde e o dia estará irremediavelmente perdido. Dez minutos mais cedo e consigo estar a caminho do trabalho às nove e meia da manhã, uma hora depois de ter dado entrada com três pessoas à minha frente mas com seis funcionárias desta social (in)segurança longe de dispensarem o café das oito e quarenta e cinco, conquista árdua de Abril (assim o afirmam), ou antes consequência directa da queda do mesmo, vítima de infanticídio na precoce idade de sete meses, quando as crianças ainda mal distrinçam o familiar do estranho que pela porta entra. Coitadita, na dúvida nem tempo teve de gritar e a parede tingiu-se de vermelho, cor da revolução, ironia do destino...
As centenas de pessoas que todos os dias assistem à segurança social e às suas intermináveis filas, as quais obrigam à recusa de distribuição de senhas depois das onze da manhã (para fúria justificada e descontrolada de todos quantos ali se deslocam até ao fecho das portas, às dezasseis e trinta, cumprindo escrupulosamente a noção de serviço público acima enunciada), são, não só, tema para muitas páginas de jornais e edições de telejornal, como revela a quem nos visita as dificuldades de se nascer ou querer português ser. Com o passar dos anos nunca o espectáculo mudou de figura e a história repete-se com a mesma cadência de um relógio nuclear, à espera de explodir de rádio e de raiva um destes dias, ou não fosse estar a polícia à porta, de modo a garantir a quem sofre que aos mesmos não cabe o direito a espernear.
Como professor e como português pouco remédio tive senão engolir o xarope deste caldo social às colheres, e cheias. No ano de dois mil e dois e após um ano de descontos cabia-me o direito ao subsídio de desemprego e desafogo, e por tal a necessidade de tão madrugadoras viagens. Pelo caminho teria ainda de registar a minha inscrição no centro de desemprego, mera formalidade para quem nunca almejou essa digna profissão de torneiro mecânico ou mulher a dias, à qual nos recusamos hoje e sempre a obedecer, não por desprezo para com os nossos pais e para com as horas ainda hoje gastas nesse lavrar diário, e a partir das quais vemos hoje o pão na mesa e o estômago consolado, adormecido, mas porque insistimos em bater o pé e abrir as mãos ao sacrifício pelos mesmos feito contra o deus e as vontades de poucos, na esperança de ver nos filhos toda a realidade que lhes foi vedada por arames e barricadas, as trincheiras gazeadas milimetricamente, deixando apenas o espaço de uma só máscara para a vida prender. Na verdade, só se pode respirar, sôfregamente, em golfadas taquicárdicas. O suor cobre-lhes o rosto. Pelo canto, embaciado, vêm-se os filhos, e os filhos nascem e crescem, tornando-se impossível não sonhar com aquilo que não se teve: direitos,
morreremos de pé na certeza de trazer
uns tantos ou quantos connosco,
de modo a preencher a solidão desta cova fria
onde a alma jaz e prega,
vazia, pesada, debaixo dos quilos de húmus
e horizontes estratificados, onde se conta e se lê a história de muitas vidas.

No ano de dois mil e dois candidatei-me ao subsídio de desemprego e esperei. Esperei pelos resultados da candidatura ao Centro de Área Educativa de Viana do Castelo. Estreava-me assim na senda anual do professor de Portugal: no fim do processo de candidatura aos dezoito Centros de Área Educativa do país, escolhe-se aquele no qual se está melhor colocado ou aquele onde se pensa pescar a maior quantidade de ofertas de emprego, solicita-se o subsídio de desemprego em função dos ganhos do ano transacto e espera-se
e reza-se
por uma colocação vinda quando o natal ainda não teve tempo de ser colocado à venda nas prateleiras do supermercado. É um jogo: mais não se pode esperar, e nos entretantos é a tua família que se esconde à espreita, à espera, a suster os bofes, sem querer, mas sem deixar de, exercer essa pressão redutora que calafeta em definitivo a charneira do espírito que nos acompanha: e depois? Já pensaste no que vais fazer depois? Sim tia, já pensei, morrem as vacas, ficam-se os bois, que quer que lhe diga?...
A ajudar ao clima de expectativa, neblina e antecipação que lenta e volumosamente se erguia das praias diante da minha casa para subir as dunas e as colinas de areia, pé ante pé caminhando na minha direcção, cobrindo o horizonte com a dúvida da tempestade e a incerteza do vento, não posso dizer ter tido o mais brilhante início de namoro. Namorava a Isabel haviam seis meses, e só há pouco tempo lhe conhecia os pais e os sogros que hão-de ser. Conhecê-los fôra subir toda uma série de degraus. Não importando o facto de termos os dois a supostamente independente idade de vinte e quatro anos, a Isabel ainda escondia os namorados aos pais e ao pai, protectores e protector da filha que é a mais nova. E se nesse primeiro Verão do nosso namoro vivemos felizes o segredo dessa caixa que não se devia abrir e agora aberta está, escancarada de par em par, portadas de cadeados irremediavelmente partidos e perdidos, chaves deitadas fora na fúria de quem se vê como se fosse a primeira vez desde que muito tempo passou, deixando romper o calor do Verão e a força do vento quente que deita por terra as árvores e os corpos dos amantes, foi com o fim desse mesmo Verão que em vão vislumbrámos o futuro que era o nosso. Incapazes de adivinhar o futuro guardado na esfera de cristal, como professores contávamos com o ovo que no cu de uma galinha daria a esperada colocação no mês de Novembro, assegurando assim mais um ano de trabalho e xis dias de tempo de serviço na demanda de uma colocação em definitivo. Na pior das hipóteses teríamos de viver por um ano longe um do outro, na base dos reencontros fugazes, fugidios e escorregadios, braços caídos para longe um do outro, levados na corrente apressada do fim, este sim, da semana, quando o domingo mergulha nu e decidido nas águas da Segunda que se avizinha e abeira, questionante, indagativa, guardando dos amantes as tormentas que hão-de anteceder o próximo fim-de-semana. Na pior das hipóteses… na pior das hipóteses teremos de colocar três reticências renitentes, pois não conheço família alguma feliz por acolher à porta de casa a desesperança caída e a apreensão presente, amicíssimas uma da outra, uma é a mão esquerda, outra a mão direita que o meu sogro cumprimenta pela primeira vez, vigorosa e seguramente à procura de saber porque lhe fogem por entre os dedos o saco de ossos, ligamentos e músculos que me fazem as vezes dos dedos, medos de quem pouco mais tem a mostrar para além dos estudos e o olhar enrugado, com’á roupa caída nos ombros, tão adolescente como rasgada, traçada a naftalina e borboletas, no desleixo de quem vê demasiados dias passar à frente dos olhos: à espera.
A barba por fazer.
Impunha-se um projecto, um objectivo, uma justificação, uma desculpa, algo de concreto que pudesse estender como carta de apresentação a quem me perguntasse e interrogasse sobre a situação presente, como se a culpa fosse minha e a responsabilidade toda nossa sobre os modos a encontrar para sair do buraco onde agora, três metros abaixo do solo, a luz do sol teimava em não entrar, enterrando na penumbra o sonho de um dia poder ter uma vida com um nome e uma insígnia: a minha. Nos entretantos o subsídio de desemprego teimava em não entrar, limitando-se a esperar à porta de casa, de ouvidos moucos e olhar vazio, perdido no mar que da entrada se alcança, deitando a perder as economias amealhadas num ano de trabalho. Minha mãe, sempre atenta, insistia na necessidade de um emprego, qualquer emprego: um emprego!, conquanto me sustentasse, levando assim para longe as preocupações que revestem o dia a dia de quem um dia teve filhos e os sabe como parte de si, braços e pernas de si, autónomos, inteiros, gomos lançados ao mundo, poço sem fundo e sem luz, tempestade vermelha em giro contínuo onde as mães desesperam porque vivem na sina de nela perderem os filhos que são os seus, geração atrás de geração, sempre na esperança de um dia voltarem a encontrar o abraço igual ao seu. Ora, soubessem as mães ser esta crença o motor da tempestade e decerto deixariam de acreditar, para nesse mesmo dia deitar por terra o corpo inanimado desse mundo que afinal não gira, apenas foge ao amor convulsivo e assim anda para a frente.
Um emprego, portanto, e um emprego, dizia eu, roendo entre os dentes cinco anos de estudo e um curso superior. Não, mãe, não fugi ao emprego. Talvez não estivesse preparado... não estava. Tinha acabado o curso, havia trabalhado um ano, porquê então deitar por terra a esperança de um dia vir a ter uma vida decente, se tinha a cabeça e toda esta vontade? O problema é sempre o mesmo: e então, o que queres tu fazer?, perguntava a minha mãe, porque não é o emprego que me preocupa, mas sim o facto de te encontrares desocupado. Porque não há quem te ature!. Queres ir para África? Vai para África! Queres ser professor? Então olha à tua volta!
O
QUE
É
QUE
TU
QUERES FAZER??
Eu queria ser professor, mãe, e não queria ser professor. Ganhar mil euros por mês e trabalhar numa área social, com pessoas, para pessoas, ter o ordenado de quem se licenciou e o desafio desta licença para aprender. Não trabalhar nos serviços, mas usufruir dos mesmos, não servir nos cafés, ser servido, pertencer a uma classe média e respirar algum poder económico, sair do país uma vez por ano e um dia destes tirar um mestrado, procurar o ensino superior e largar o professorado e o secundário. Subir, mãe, subir, mas com a consciência de quem conhece a corrida e o meio, onde partir da largada não é partir em si, mas ficar espantado no mesmo lugar e assistir, impotente, à passada desenfreada de quem já nos leva a vantagem logo, logo, desde o princípio desta prova. Assim como no exército se começa pelo curso de alferes, outra coisa não pedia eu. Alferes, mamã, o teu filho oficial, qualificado e profissional.
E, por outro lado, quatro meses de desemprego trazidos nos bolsos no lugar de documentos e da carteira atestam em suficiência a necessidade de uma decisão e a urgência de um rumo, porque a manhã já vai alta e o dia é de sol, deixando a todos quantos queiram ver como é claro e óbvia a inexistência de uma colocação para o presente ano e tudo quanto a mesma acarreta. Mamã, eu pouco sabia fazer para além de estudar, área na qual sempre me destaquei na excelência e na qualidade, e por isso fui: fui estudar, mamã, para poder entrar para o curso de enfermagem, numa área diferente, num país paralelo, crua e honestamente carenciado de quem lhe trate da saúde.
Enfermagem, portanto, e enfermagem, por conseguinte. Dois exames: psicologia e biologia, as minhas áreas de força, ou não fosse ter entrado para biologia através das mesmas. Com a tarefa facilitada à partida e não querendo fomentar eventuais erros ou desnecessários falhanços, prontamente pagos atrás da caixa registadora da loja do mini-preço, sempre à espera, sempre disponível, de dedo em riste apontando para ti porque te quer, tal como te quis os amigos e os amigos teve, e toda a gente passa pela caixa na costa da caparica, coube-me então justificar os seis meses de distância e caminho apontando as baterias dos canhões e as cargas de todas as espingardas contadas, deslocando exércitos e milhares de botas e bocas em marcha carregada de pólvora e vontade para matar na direcção de Junho, fardando-me todos os dias para oito e nove horas diárias de estudo, apontamentos, mnemónicas, raciocínios e deduções lógicas, a trabalhar em função de uma só bala certeira. E na mesa, a jogo, a minha carreira na sela dianteira de uma corrida onde nunca antes tinha entrado, e da qual pouco conhecia para além do facto de só se ter dinheiro para uma aposta e um cavalo. E se quem não pode perder não deve jogar, aqui afimo como de pouco nos valem os ditados e os saberes popularucho-tradicionais quando a barriga dói e a fuga se faz para a frente, de terço na mão e a outra diante da cabeça, no jeito de quem, ainda livre e de braços soltos, procura salvar a alma e a consciência da trampa toda que nos rodeia tomando de assalto o navio, porque ainda ninguém viu, nem ninguém provou, o sabor salgado da liberdade de escolha e o sorriso simples de quem apenas é sem precisar de ser.
Pelo caminho a Isabel trabalhava entre Abrantes e Tomar, de Novembro a Agosto, acalentando assim as esperanças, que já não eram as minhas, de um dia destes passar a “ser colega” ao invés de “estar apenas de passagem”.

3 – REGRESSO AO MONTE DE CAPARICA

Submeter-me de novo aos exames, decorridos que estavam seis anos desde a minha última prestação, implicou o regresso à secundária do monte da caparica, cenário e palco para a representação de toda a minha juventude. Era necessário satisfazer um rol de formalidades, tais como o requisito do ensino secundário, na forma da Ficha ENES, e a inscrição para as malfadas provas, gigantes no cada vez mais perto horizonte do fim, onde se tapa o sol e levantam os primeiros sinais de vento.
É sempre alegre o regresso aonde um fomos felizes para constatar como nada mudou e todas as pedras ocupam ainda o mesmo lugar. A professora Manuela Carolino é ainda presidente do conselho directivo, agora apelidado de concelho executivo. Dentro do pavilhão das ciências a senhora contína, sentada no mesmo banco onde a deixei, exclama por mim e diz “olh'ó cientista!”, ignorando os meus destinos e os meus propósitos, de modo algum reconhecendo em mim a autoridade de um professor recém-formado. Talvez por causa dos ténis e da t-shirt, traçada no ombro, imagem de marca ainda latente no corpo de quem estudou mas nem por isso cresceu. Ou talvez por pura e simplesmente não ter a obrigação de recordar o meu nome, perdido nos confins da memória de quem vê passar diante das mãos e do olhar as vidas de centenas de milhar de crianças, a sua energia, os seus problemas e paixões, aventuras e contendas, e as vitórias e as derrotas onde se constroem as histórias e se erguem as lendas. Ou talvez porque é simplesmente bruta e eu por demais passivo e educado para me importar com tal recepção, porque não é ela com certeza a razão para aqui estar. De facto, entre todas as recepções possíveis e imaginárias, porquê logo esta, a qual nada parece acrescentar ao percurso por mim corrido desde que, brilhantemente, havia completado o ensino secundário com dois dezanoves, três dezoitos e uma mão cheia de dezassete valores? Aos olhos desta mulher pouco mais trazia eu para além de treze anos nos bolsos rotos e uma paixão maluca pela Patrícia, arrastando o coração moído pelos cantos por debaixo dos vãos de escada e um sem número de poemas rudimentares, tão inúteis como esperançados, instrumentos de sonho e antipiréticos para a alma, em febre, quente, ruborizada, ardente. Aos olhos desta mulher eu ainda trazia o mesmo cabelo revolto, o mesmo par de óculos redondos de mergulho e dioptrias, o olhar distraído, o andar desajeitado de quem tanto tropeça nos degraus como na vida, desengonçado e pateta, ainda mal reconhecendo o mapa do novo corpo que agora cresce e se estende de encontro às portas, as escadas e os corrimões à hora do recreio. Aos olhos desta mulher eu era o “cientista”, e ainda sou, por isso nada há a fazer no sentido da desconstrução do muro onde pintei a imagem de mim quando por esta escola passei. Por isso o sorriso, por isso a resposta, como está?, a professora Alda está?, muito obrigado, sala de físico-química, primeiro andar, sim, eu sei onde é, escusa de me indicar... obrigado, até já.
Bato à porta, tocou agora para o intervalo, os alunos saem apressadamente para a rua e, junto à secretária, arrumando papéis, bata branca aberta, a professora Alda, ícone máximo de competência, pedra incontornável do ensino e da escola, objecto de respeito e temor, como são todos aqueles que dedicam uma vida e uma profissão à paixão, ao mesmo tempo bela e sensual, elegante, sem ser demasiado alta, de faces salientes ainda rosadas, o sorriso juvenil, universitário (ainda presente), isto apesar das rugas que a idade insiste em trazer, mas sem comprometer, não vá a senhora professora zangar-se e mandar para a rua, num acesso de fúria pela insolência acometida, vinte dos seus actuais … anos!
A professora Alda... por certo poderei contar com o seu apoio, os seus conselhos, ou pelo menos assim espero... quem a visse não podia deixar de fugir à imagem de mãe e de guia, trazida no calor de um olhar, na certeza dos passos dados dentro deste aquário onde tão bem se movia, e a meio caminho dos exames de acesso à faculdade o que mais se pede é o calor de um abraço e uma mão amiga. No entanto, o erro foi meu e todo meu: não compreendendo porque me apressava eu em discorrer no curto espaço dos cinco minutos concedidos pelo intervalo à minha prece todo o problema do desemprego e o desafio à minha frente colocado, a professora Alda preocupou-se, isso sim, em rapidamente agradecer a minha visita e empurrar-me, com a ajuda da mão dextra e diligente, na direcção da porta, por onde agora entra mais uma turma e vinte e poucas almas de um metro e oitenta cada, fechando-a em seguida com o estrondo de quem viu em mim a imaturidade e a aflição de se estar só no mundo e ninguém para me valer.
A vergonha de quem agora compreende.
Com esta ajuda não posso contar. A verdade dos factos limpa as frases de rodeios, criando impressionantes afirmações. Compreendendo o meu erro, caí da minha ingenuidade abaixo, arrastando atrás de mim toda a parefernália de utensílios de cozinha e alguidares, tropeçando pelas escadas abaixo com espectáculo e estrondo. Perguntei pela professora Cristina de Biologia procurando esconder o meu embaraço, a minha frustração, a porta fechada diante do meu grande nariz trazida debaixo do braço, e despedi-me para não mais pedir ajuda na secundária do monte da caparica. Eu não era mais para lá dos outros. Apesar de a minha turma ter tido os filhos de todos os professores, em clara violação de toda e qualquer regra de equidade, outras turmas de filhos e professores haviam surgido desde então, e hoje o nosso espaço não é outro senão o das histórias por contar. Aqui não se devem favores e eu sou apenas um aluno externo proposto a exame, sem lugar nas listas de presença, nem cadeira ou carteira, alguém com quem falar, um par na brincadeira. Externo, exterior, superficial e extrínseco. A vida, meu amiga, tornara-se demasiado séria nos entretantos. E um dia destes tenho de vir à escola, apresento-me a exame e no outro dia também, e pouco mais para além disso. Já não havia alegria, não há resquício de vida, meu comandante peço permissão para regressar à base e talvez não seja assim tão alegre o regresso onde um dia se foi feliz.
Dignos de apontamentos neste meu regresso foram também certas conversas tidas junto de outros professores. De acordo com o professor José Troca, de psicologia, a minha opção era um erro porque decerto esta crise no ensino e no emprego teria o seu tempo e a sua fase, e era um erro mudar de área e tomar outra opção. Era brusco, precipitado, e eu não devia dar tanto valor a tantas preocupações. O meu orientador de estágio partilhava de igual opinião. O tempo, no entanto, ainda hoje e ano após ano, iniste em ter em mim a razão. Decerto a experiência e os anos de vida falavam assim pelas suas bocas, e nada tenho a dizer dentro desse capítulo. Mas só fala assim quem tem a barriga cheia e um lugar garantido no quadro da sociedade, sem poder compreender como é ver o mundo dentro destes olhos, à solta na terra de ninguém.